Uma nova visão da realidade

May 14, 2018

Para começarmos nossos estudos precisamos dar uma olhada em alguns conceitos importantes. O primeiro deles é baseado nos filósofos chineses que viam a realidade, a cuja essência chamaram de Tao, como um processo de contínuo fluxo e mudança. Na concepção deles, todos os fenômenos  que observamos participam desse processo cósmico e são, pois, intrinsecamente dinâmicos. A principal característica do Tao é a natureza cíclica de seu movimento incessante, a natureza, em todos os seus domínios exibe padrões cíclicos. Os chineses atribuem a essa ideia de padrões cíclicos uma estrutura definida, mediante a introdução  dos opostos Yin e Yang , os dois polos que fixam os limites para os ciclos de mudança: tendo yang atingido seu clímax, retira-se em favor do yin, tendo a yin atingido seu clímax , retira-se em favor do yang.

Na concepção chinesa, todas as manifestações do Tao são geradas pela interação dinâmica desses dois polos arquetípicos. È importante compreender que esses opostos não pertencem  a diferentes categorias, mas são polos extremos de um único todo. Nada é apenas yin ou apenas yang. Todos os fenômenos são de uma contínua oscilação entre os dois polos, todas as transições ocorrem gradualmente e numa  progressão ininterrupta. A ordem natural é de equilíbrio dinâmico entre yin e yang.

Segundo Manfred Porkert, em seu estudo de medicina chinesa, o yin corresponde a tudo que é contrátil, receptivo e conservador, ao passo que o yang implica tudo que é expansivo e exigente. Outras associações incluem, por  exemplo:

 

            Yin                                                  Yang

            Terra                                              Céu

            Lua                                                 Sol

            Noite                                              Dia

            Inverno                                         Verão

            Umidade                                      Secura                                                   

   

Um dos mais importantes insights da antiga cultura chinesa foi o reconhecimento de que a atividade – o constante fluxo de transformação  e mudança – é um aspecto essencial do universo. A mudança, segundo esse ponto de vista, não ocorre como consequência de alguma força, mas é uma tendência natural, inata em todas as coisas e situações. O universo está empenhado em um movimento e uma atividade incessante, num contínuo processo a que os chineses chamaram de Tao.

Parece existir duas espécies de atividade: uma, em harmonia com a natureza e outra, contrária ao fluxo natural das coisas. Não é alimentada a ideia de passividade, a ausência completa de qualquer ação. Podemos interpretar o Yin como uma atividade receptiva, consolidadora e cooperativa, e o Yang à atividade agressiva, expansiva e competitiva. A ação Yin tem consciência do meio ambiente, a ação Yang está consciente do eu. Poderíamos chamar a primeira de eco-ação e a segunda de ego-ação.

Essas duas espécies de atividade estão intimamente relacionadas com dois tipos de conhecimento, ou dois tipos de consciência  características da mente humana. São usualmente denominados de método intuitivo e método racional, e tem sido tradicionalmente associados à religião ou misticismo e à ciência. O racional e o intuitivo são modos  complementares de funcionamento da mente humana. O pensamento racional é linear, concentrado e analítico. Pertence ao domínio do intelecto, cuja função é discriminar, medir e classificar. Assim o pensamento racional tende a ser fragmentado. O conhecimento intuitivo, por outro lado, baseia-se numa experiência direta, não-intelectual, da realidade em decorrência de um estado ampliado da percepção  consciente. Tende a ser sintetizador, holístico e não-linear. Daí ser evidente que o conhecimento racional é suscetível de gerar atividade egocêntrica, ou yang, ao passo que a sabedoria intuitiva constitui a base da atividade ecológica ou yin.

É esta, pois, a estrutura conceitual para nossa exploração de valores e atitudes culturais.      

           Yin                        Yang

            Feminino             Masculino

            Contrátil               Expansivo   

            Conservador        Exigente

            Receptivo             Agressivo

            Cooperativo         Competitivo

            Intuitivo                Racional                                           

 

Se atentarmos para a lista de opostos, é fácil de ver que nossa sociedade tem favorecido sistematicamente o yang em detrimento do yin. O conhecimento racional prevalece sobre a sabedoria intuitiva, a ciência sobre a religião, a competição sobre a cooperação, a exploração de recursos naturais em vez da conservação e assim por diante.

A preferência sistemática por valores, atitudes e padrões de comportamento yang resultou num sistema de instituições acadêmicas, políticas e econômicas que se apoiam mutuamente, e que acabaram virtualmente cegas para o perigoso desequilíbrio do sistema de valores que motiva suas atividades. De acordo com a sabedoria chinesa, nenhum dos valores defendidos pela nossa cultura é intrinsecamente mau, no entanto, ao isola-lo de seus opostos polares, ao focalizar o yang e investi-lo de virtude moral e de poder político, ocasionamos o atual estado de  nossa sociedade. Nossa cultura orgulha-se de ser científica, nossa época é apontada como a Era científica. Ela é dominada pelo pensamento racional, e o conhecimento científico é frequentemente considerado a única espécie aceitável de conhecimento. Não se reconhece geralmente que possa existir um conhecimento ( ou consciência ) intuitiva, o qual é tão válido e seguro quanto o outro. Essa atitude, conhecida como cientificismo, é muito difundida, e impregna nosso sistema educacional e todas as outras instituições sociais e políticas.

A ênfase  dada ao pensamento racional em nossa cultura está sintetizada no celebre enunciado de Descartes – penso, logo existo – o que encorajou eficazmente os indivíduos ocidentais  a equipararem sua identidade com sua mente racional e não com seu organismo total. Veremos que os efeitos dessa divisão entre mente e corpo são sentidos em toda a nossa cultura. Na medida em que nos retiramos para nossas mentes, esquecemos como pensar com nossos corpos , de que modo usá-los como agentes do conhecimento.

Para Rene Descartes, filósofo do século XVII, a visão da natureza derivava de uma divisão fundamental em dois reinos separados e independentes: o da mente e o da matéria. A divisão cartesiana permitiu aos cientistas tratar a matéria como algo morto e inteiramente apartado de si mesmos, vendo o mundo material como  uma vasta quantidade de objetos reunidos numa máquina de grandes proporções. Essa visão mecanicista do mundo foi sustentada por Isaac Newton, que elaborou sua Mecânica a partir de tais fundamentos tornando-a o alicerce da Física clássica. Durante 200 anos este modelo mecanicista newtoniano do universo dominou todo o pensamento científico. Esse modelo caminhava paralelamente com a imagem de um Deus monárquico que, das alturas governava o mundo, impondo-lhe a lei divina. As leis fundamentais da natureza, objeto da pesquisa científica, eram então encaradas como as leis de Deus, ou seja, invariáveis e eternas, às quais o mundo se achava submetido.

Essa divisão entre mente e corpo causa um conflito aparente entre a vontade consciente e os instintos inconscientes. Posteriormente, cada indivíduo foi dividido num grande numero de compartimentos isolados de acordo com as atividades que exerce, seu  talento, seus sentimentos, suas crenças etc, todos estes engajados em conflitos intermináveis, geradores de constante confusão e frustrações.

Essa fragmentação interna espelha nossa visão do mundo exterior, que é encarado como sendo constituído de uma imensa quantidade de objetos e fatos isolados. O ambiente natural é tratado como se consistisse em partes separadas a serem exploradas por diferentes grupos de interesse. Essa visão fragmentada é ainda mais ampliada quando se chega à sociedade, dividida em diferentes nações, raças, grupos políticos e religiosos. A crença de que todos esses fragmentos – em nós, em nosso ambiente e em nossa sociedade – são efetivamente isolados pode ser encarada como a razão essencial para a atual série de crises sociais  e culturais.

Esta divisão cartesiana  e a visão de mundo mecanicista tem, pois , apresentado pontos positivos e negativos. Por um lado, mostraram-se extremamente bem sucedidas no desenvolvimento tecnológico, por outro tem apresentado inúmeras consequências adversas para nossa civilização.

Em contraste com a visão ocidental, a visão oriental do mundo é orgânica. Para o místico oriental, todas as coisas e todos os fatos percebidos pelos sentidos acham-se inter-relacionados, unidos entre si, constituindo tão simplesmente aspectos ou manifestações diversos da mesma realidade última. Nossa  tendência para dividir o mundo que percebemos em coisas individuais e isoladas, e nós mesmo como egos isolados neste mundo, é vista como uma ilusão proveniente de nossa mentalidade voltada para a mensuração e a categorização. Os orientais chamam isso de Avidya (ignorância), sendo considerada como o estado da mente perturbada que necessita ser superada.

As escolas do misticismo oriental, divergem em inúmeros detalhes, mas todas enfatizam a unidade básica do universo. O objetivo mais elevado para seus seguidores – sejam hindus, budistas ou taoistas – é precisamente tornar-se conscientes dessa unidade e da inter-relação mútua de todas as coisas, transcender a noção de ser individual e identificar-se com a realidade fundamental. Esta visão é dinâmica , contendo o tempo e a mudança como características fundamentais. O cosmos é visto como uma realidade inseparável, em eterno movimento, vivo, orgânico, espiritual e material ao mesmo tempo. Em consequência disso o Divino não é a imagem de um governante que, das alturas, dirige o mundo, mas a de um princípio que tudo controla de dentro.

Por esta breve panorâmica de atitudes e valores culturais, podemos ver que nossa cultura promoveu e recompensou sistematicamente os elementos yang, masculinos e auto-afirmativos da natureza humana, e desprezou os aspectos yin, femininos ou instintivos. Hoje , porém, estamos testemunhando o começo de um grande movimento evolutivo, uma inversão na flutuação entre yin e yang. Como diz o ditado chinês: o yang, tendo atingido seu clímax, retira-se em favor do yin . As décadas de 60 e 70 do século XX geraram uma série de movimentos filosóficos, espirituais e políticos que parecem caminhar nesta direção. Eles contrariam a excessiva ênfase nas atitudes e valores yang e tentam restabelecer um equilíbrio entre estes dois aspectos, na natureza humana.

Texto elaborado a partir das obras O Tao da física e o Ponto de mutação de Fritjof Capra

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"Qualquer caminho é apenas um caminho e não constitui insulto algum  – para si mesmo ou para os outros – abandoná-lo quando assim ordena o seu coração (...) 

Olhe cada caminho com cuidado e atenção. Tente-o tantas vezes quantas julgar necessárias...

Então, faça a si mesmo e apenas a si mesmo uma pergunta: possui este caminho um coração?

Em caso afirmativo, o caminho é bom. Caso contrário, esse caminho não possui importância alguma."     

Carlos Castaneda – os ensinamentos de Dom Juan